Você Não Perdeu a Criatividade. Aprendeu a Escondê-la.

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Observe uma criança brincando. Ela pega uma pedra e declara que é um carrinho. Pega um pedaço de pau e transforma em espada, em microfone, em varinha mágica. Ela não pede permissão para criar. Não verifica se a ideia é boa o suficiente antes de compartilhá-la. Não tem medo de estar errada. Não compara o que imagina com o que os outros imaginam.

Picasso disse algo que Sir Ken Robinson, educador britânico e um dos maiores pensadores sobre criatividade do século XX, repetiu numa das palestras mais assistidas da história:

A palestra de Robinson, “Do Schools Kill Creativity?”, foi apresentada no TED em 2006 e se tornou o vídeo mais assistido da história da plataforma, com mais de 100 milhões de visualizações. O argumento central é simples e devastador: não crescemos para dentro da criatividade. Crescemos para fora dela.

Não é que alguns têm e outros não têm criatividade. É que o processo de adaptação social, a escola, a família, a necessidade de pertencer, de ser aprovado, de não errar, vai silenciando, camada por camada, a capacidade criativa que todos trouxemos ao nascer.

Fonte: Sir Ken Robinson, TED Talk ‘Do Schools Kill Creativity?’, 2006. Mais de 100 milhões de visualizações. — https://jamesclear.com/great-speeches/do-schools-kill-creativity-by-ken-robinson

Existe uma pressão silenciosa que começa cedo. Sente, fique quieto. Não fale fora da hora. Faça como os outros. Não chame atenção. Seja igual.

E durante um tempo, especialmente na infância e na adolescência, essa adaptação é até necessária. Pertencer é uma necessidade humana real. Não há problema nenhum em aprender as regras do jogo social.

O problema é quando a adaptação vira prisão permanente. Quando o adulto que você se tornou continua se cortando para caber em lugares que já não fazem mais sentido. Quando você para de criar porque tem medo de errar. Quando você para de se expressar porque tem medo de ser diferente. Quando você escolhe o ctrl+v em vez da criação porque é mais seguro, mais rápido, mais aceito.

A conformidade protege. Mas também apaga. E o que foi apagado pode ser resgatado, se você tiver coragem para isso.

Existe um equívoco que precisa ser desfeito de vez: a ideia de que criatividade é um talento que algumas pessoas têm e outras não. Que é para músico, para artista, para designer. Que quem nasceu “mais racional” simplesmente não é criativo.

Isso é mito. E um mito caro, porque ele libera as pessoas da responsabilidade de desenvolver algo que está dentro de todas elas.

Criatividade é como um músculo. Atrofia quando não é usado. Mas responde ao treinamento. Cresce com a prática. Volta quando você decide buscá-la.

A analogia com a academia é precisa: ninguém vai à academia uma vez e fica musculoso para sempre. Nem fica musculoso esperando a musculatura aparecer espontaneamente. É preciso ir. É preciso treinar. É preciso ser consistente.

Com a criatividade, funciona da mesma forma. Você não espera a inspiração chegar, você cria as condições para ela aparecer. Você sai da rotina. Você se expõe ao novo. Você brinca. Você erra sem punir a si mesmo por isso.

Fonte: Austin Kleon, ‘Roube como um Artista’ (Steal Like an Artist), 2012. Um dos livros mais influentes sobre criatividade prática. — https://austinkleon.com/steal/

Nunca houve tanto conteúdo. Nunca houve tanta informação disponível, tanta oferta, tanta produção. E nunca, ao mesmo tempo, houve tanta mesmice.

O ctrl+v virou estratégia de comunicação. Tendências são copiadas antes de serem compreendidas. Formatos virais são replicados até esvaziar completamente o significado que tinham. 

É nesse contexto que a criatividade deixa de ser qualidade estética e vira diferencial estratégico. Porque num ambiente onde tudo parece igual, o que é genuinamente diferente captura atenção. O que é autêntico gera confiança. O que tem voz própria cria conexão real.

E autenticidade, essa qualidade que o mercado tanto busca e tão raramente encontra, tem na sua base exatamente isso: criatividade. A coragem de criar a partir do que você é, do que você pensa, do que você viveu, sem pedir permissão e sem esperar que alguém valide primeiro.

Quem recupera a criatividade conta histórias diferentes. Não porque inventa mais, mas porque para de filtrar o que é real, o que é genuíno, o que é seu.

A criança que pega a pedra e vê um carrinho não está mentindo. Está conectando o que existe com o que imagina  e criando algo novo nessa conexão. É exatamente isso que os melhores comunicadores, líderes e empreendedores fazem com as próprias histórias: conectam o que viveram com o que querem comunicar, de uma forma que só eles poderiam fazer.

Isso não se aprende em manual. Vem de dentro. Vem de alguém que parou de se cortar para caber e começou a se expandir para ocupar o espaço que sempre foi seu.

Crie algo que não precisa ser bom. Escreva sem publicar. Desenhe sem mostrar. Cozinhe sem receita. O cérebro criativo se ativa quando o julgamento é desligado.

O medo do erro é o maior inimigo da criatividade. Erro não é fracasso  é informação. É o caminho para o que funciona.

Música, arte, ficção, poesia, cinema, tudo isso alimenta a criatividade de formas que o conteúdo técnico não consegue. Cuide do que entra na sua mente.

A primeira versão nunca precisa ser perfeita. Ela precisa existir. Refine depois, mas primeiro deixe sair.

Como Austin Kleon ensina em seu livro Roube como um artista: todo trabalho criativo se constrói sobre o que veio antes. Inspire-se, misture, reinterprete e faça seu. Originalidade não nasce do nada. Nasce da combinação corajosa do que existe.

Silvana Lages

Fundadora da Editora Empreender

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Saiba mais: (31) 9 9136-7973

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