A história da desvalorização da mulher vem desde a escolha de Eva entre o desejo e a obediência. Considero que nós, mulheres, vivemos hoje uma das fases mais delicadas de nossas vidas. Até pouco tempo não tínhamos, voz, vez e nem valor. Mesmo assim, muito honro nossas ancestrais, uma vez que só somos e vivemos o que vivemos porque elas existiram e lutaram por nós.
Entendo que passamos por muitas e diferentes fases: lutamos muito, ganhamos, perdemos e ainda permanecemos na luta, mas sei que conseguimos, enfim, chegamos ao momento atual onde nos é dado voz, vez e valor, ou melhor dizendo, onde conquistamos pois, nada nos foi dado.
Que maravilha você poderá estar pensando. Tudo está certo e resolvido, a guerra foi vencida!!! Só que não!!! Algumas batalhas, sim, foram vencidas, mas agora temos um desafio tremendo pela frente.
O desafio é que agora temos a voz, a vez e o valor, mas muitas vezes não estamos sabendo lidar com tudo isto. A mudança foi grande em muitos pontos, em outros nem tanto. Tudo foi muito acelerado. Nos entregaram um título de Mulher Maravilha, e isto está sendo muito desafiante e, por isso, vejo muitas mulheres desvalorizando sua Marca Pessoal por não saberem lidar com todos os desafios atuais, inclusive sentindo-se pressionadas a ficar no posto que estão como se tudo estivesse bem, mesmo sofrendo por dentro a foto do Instagram exala felicidade e realização.
Passamos a ter “um arsenal de coisas para ser e fazer”, mas não nos foram tiradas ainda nenhuma das “coisas das mulheres de antigamente” (diga-se de passagem, ainda bem!). Ainda somos, filha, irmã, amiga, namorada, esposa, amante, dona de casa, mãe e não preciso dizer o quão pesado é administrar tudo isto aliado ao posto de “Mulher Maravilha”, e para ficar mais picante adicionamento a TPM e todos os nossos hormônios que muitas vezes nos deixam em situações delicadas.
Ah!… E associado a tudo isto, vem a cereja do bolo, que na maioria das vezes tem sabor de jiló, que é a pressão da ditadura da beleza, muitos querem nos convencer que a mulher precisa ser eternamente linda, magra, elegante e jovem. Somos bombardeadas por esta maldita ditadura.
Até pouco tempo, quando pleiteávamos cargos elevados e de nível intelectual mais alto, antes só ocupados pelos homens, eles pensavam e agiam assim: “não tem jeito, vamos ter que deixar esta mulherada entrar aqui no nosso meio, elas são duras na queda e não vão desistir fácil, porém para entrar em nosso mundo terão que se vestir como homens”. Em razão desse pensar, a mulher que se atreveu a estes cargos, para ser ouvida e respeitada, não viu outra possibilidade do que se render ao terninho preto com camisa branca, “uniforme” que usou por tempos para poder ser vista, ouvida e respeitada como uma “Mulher de negócios”.
Durante anos e anos muitas mulheres tiveram um guarda roupa profissional lotado de ternos pretos, variando somente a parte de baixo entre a calça e a saia abaixo do joelho com meia. Os cabelos presos, maquiagem invisível e acessórios mini, unhas, sempre claras e bem curtas. Um verdadeiro engessamento da essência da mulher que é múltipla, leve, versátil, inovadora e fluida.
Vivi um pouco desta fase, mas, a situação já era outra: tinha um guarda roupa de ternos variando somente a parte de baixo entre calça e saia, mas já foi outra coisa, pude variar nas cores, usei pouco preto. Nossa Silvana Lages, que bom que passou, hoje podemos ir vestida de “mulher” para o ambiente corporativo!!!
Sim, podemos, graça a Deus, mas o que me assusta até hoje é se você for ao Google e pesquisar na aba de imagem as seguintes palavras – Executiva- Mulher no trabalho- Mulher de sucesso – o que vai encontrar em 90% dos casos são 50 tons de preto, disse tons de preto, não de cinza (kkkk).
Fico triste por esta esmagadora imagem dos 50 tons de preto ainda imperar, mesmo diante do lindo trabalho da executiva Sheryl Sandberg, e da agência Getty Images, (http://revistadonna.clicrbs.com.br/lifestyle/projeto-cria-banco-de-imagens-de-mulheres-reais/) que vêm se empenhando em mudar o estereótipo da Mulher que é múltipla e precisa ser vista assim pois:
“Quando observamos imagens de mulheres, homens ou crianças, somos levados pelo senso comum e caímos no exato estereótipo que queremos quebrar. E você não pode ser aquilo que não pode ver.”
Que trabalhos como este da Sherryl e Agência Getty Imagens possam tomar força o mais rápido possível. Eles estão criando um banco de Imagem que represente a mulher de negócios de várias formas diferentes.
Depois que foram criadas as princesas da Disney, a Marca Pessoal de valor de uma mulher, por muito tempo, foi tida como a da princesa linda, meiga, delicada, alta, magra, olhos claros, rica, e que fica à espera do príncipe encantado para ter o sonhado final feliz. Isto é, até nossos dias, subliminarmente vendido como Vida de Princesa, vida dos sonhos para as mulheres.
Nós, mulheres, precisamos de muito ajuda, apoio e atenção para podermos agregar valores em nossa Marca Pessoal. Por causa da nossa liberdade atual e de todos os desafios que acima citei, muitas vezes, inclusive eu, nos pegamos tentado replicar a Marca da Mulher Maravilha, das princesas, das rebeldes sem causa… e isto é um peso muito grande além de não corresponder à verdade e muito menos à realidade.
Há um tempo atrás, Esther Soares Proença – uma jovem mestra de mais de 90 anos, muito sábia, inteligente, culta, leve, de quem sou fã de carteirinha, estava falando sobre esta necessidade de ainda manter nos dias de hoje este aprincesamento das mulheres ao invés de sempre focar nas mulheres atuais independentes, capazes de brilhar e progredir na vida pelas próprias competências e esforços. Por isso, faço minhas as palavras dela:
“Acho que as princesas de hoje só podem ensinar que, sem competência e sem qualidades próprias, e com corrupção, o Reinado desmorona, alguém rouba sua coroa, raspa seus cabelos e descola sua peruca. E, ainda, sem um diploma universitário, jogam a boneca na cela comum. ”
Se você quer desfrutar mais deste poço de sabedoria, que é a minha Estherzinha, acesse http://silvanalages.com.br/de-lavandas-e-tacas-de-consome/
Tenho este artigo como um alerta para com todas as distrações e ciladas enquanto estamos nas nossas incansáveis batalhas diárias e rotineiras para que possamos nos manter firmes e focadas para mostrar ao Mundo a nossa Marca Pessoal como mulheres, livres, capazes, sensíveis, reais, normais, especiais. Seres que têm seu brilho, suas dores, suas delicias, tudo bem normal. Depois das redes sociais muitas mulheres se cobram uma vida perfeita já que nas redes sociais o que se vê são quadros falando somente de sucessos, só grama verde o tempo todo e nunca o processo de adubamento, muito menos aquela parte que morreu e está sendo replantada.
Não somos a mulher maravilha, mas com certezas somos grandes heroínas em busca do nosso lugar que ainda está meio estranho e confuso, mas, aos poucos, todas vamos encontrado o nosso lugar “certo” neste trem da vida onde somos passageiras como deliciosamente nos poetizou a querida Ana Vilela na sua sábia canção “Trem bala”. Clique aqui
Não precisamos carregar nenhum estereótipo, nem nos perdermos por sermos quem não somos de verdade. Temos que tomar, sim, muitos cuidados, pois, por sede de liberdade, tem mulher trazendo sensualidade em dose exagerada e imprimindo vulgaridade na sua Marca. Quando a mulher imprime sua Marca de forma errônea ou não correspondente com sua verdade, certamente não está usando a melhor opção para se impor profissionalmente. Por isso, reforço: todo o cuidado é pouco para uma boa fixação de sua Marca Pessoal. O maior desafio de uma Marca Pessoal é, de fato, conseguir ser representada pela nossa verdade. As pressões, cobranças e necessidades loucas da vida a que “somos obrigadas” a usar quase que na totalidade do tempo estão, de fato, nos deixando sem tempo para sermos a mulher que normalmente está aprisionada dentro de nós, sem tempo para mostrar a nossa verdade. É preciso ter muito “peito” para soltar a nossa mulher e estampá-la na Marca Pessoal, além de muito tempo dedicado ao autoconhecimento para poder entender o que é ser mulher.

